quarta-feira, 13 de agosto de 2008

O pesadelo do traffic shaping

Sou usuário do Velox -- a internet ADSL da Telemar -- há bastante tempo. O serviço poderia ser muito melhor, mas, na maior parte do tempo, funciona razoavelmente bem. Há seis meses, a taxa de transmissão de dados da minha conexão quando navego em páginas da web ou baixo arquivos via http aumentou assustadoramente. Foi uma surpresa agradável para quem ainda tem um contrato dos mais antigos (256 Kbps).

Por outro lado, estou profundamente irritado com a Telemar, que passou a estrangular minha conexão sempre que tento baixar arquivos por meio de redes p2p (ponto-a-ponto) que utilizam o protocolo bittorrent. A empresa não fala sobre isso abertamente, mas certamente está utilizando um recurso conhecido como traffic shaping.

Sob o pretexto de "otimizar" o tráfego de dados, muitos provedores de acesso passaram um filtro que funciona como uma espécie de freio para assinantes heavy users, que compartilham grandes volumes de dados em redes p2p. Quando se tenta começar um download, a velocidade despenca vertiginosamente, mesmo se o arquivo escolhido estiver sendo disponibilizado por uma legião simultânea de usuários nos quatro cantos do mundo -- os seeders (semeadores, em inglês).

No início do ano, a Comcast -- um dos maiores provedores internet dos Estados Unidos -- foi obrigada a desativar o traffic shaping. A Comissão Federal de Comunicação (FCC) -- órgão equivalente à nossa Anatel -- entendeu que os usuários têm o direito de usar sua conexão da forma que quiserem. A Comcast prometeu recorrer da decisão e pode acabar sendo multada.

Teles brasileiras na lista suja

Um relatório divulgado no início do ano pela Vuze colocou as operadoras brasileiras Oi (Telemar), Brasil Telecom, Net e Telefônica no ranking mundial com 108 provedores suspeitos de traffic shaping. O caso mais grave é o do Brasil Telecom, que apareceu na 9a. posição. O estudo foi feito com base em dados coletados a partir de um plugin gratuito. Negócios como o da Vuze, que atua no segmento de vídeo digital sob demanda (streaming), acabam sendo prejudicados pelo traffic shaping. Para consultar o relátório (.PDF), clique aqui.

O contrato do Velox não menciona nada parecido com traffic shapping. Entre as empresas brasileiras citadas pelo realatório da Vuze, a Net é a única que assume publicamente a prática de estrangular o acesso a redes p2p. Outras operadoras se esquivam do problema, alegando que a velocidade dos downloads via bittorrent não está relacionada com a oferta de banda ao usuário, mas com a qualidade das redes p2p e a oferta de seeders ativos.

Programas que funcionam como clientes de redes p2p como o BitComet, Azureus e uTorrent possuem um recurso de embaralhamento de dados (criptografia) para driblar o traffic shaping. Mas a evolução do arsenal tecnológico dos provedores de acesso acabou tornando este recurso inócuo. Os serviços online que checam a conexão para dizer se o provedor está regulando ou não acesso a redes p2p também já não são mais confiáveis.

Solução

Reclame, proteste. O Youtube está lotado de vídeos de usuários brasileiros de banda larga mostrando flagrantes de traffic shaping. Se o contrato com o seu provedor não prevê este tipo de prática, vale a pena registrar um queixa no site da Anatel. Se o problema persistir, procure um órgão de defesa dos direitos do consumidor.

Uma solução temporária -- e paga -- é usar um recurso conhecido como VPN (Virtual Private Network ou Rede Virtual Privada) para dar driblar a canalhice do provedor de acesso. Mas isso não é tarefa das mais fáceis usuários menos experientes -- e não vale a pena.

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